Todos sabemos que muitos de nós, filhos separados dos pais por conta da hanseníase, fomos JOGADOS em hospitais psiquiátricos também e quando colocamos em pauta os horrores que muitos irmãos vivenciaram, alguns pensam que é exagero.
Eni Carajá enviou me esta matéria hoje e ela é bem oportuna para mostrar que, quando estamos batendo na porta do Governo Federal pedindo o que é nosso, a REPARAÇÃO MORAL E FINANCEIRA, não estamos contando uma historinha ou duas. Estamos falando de crimes irreversíveis, cometidos contra crianças que não tinham culpa de serem filhas de pacientes de hanseníase e seus pais também não eram réus de crimes, mas vítimas do descaso daquela época com a saúde pública deste país.
Com amor pleno
Teresa Oliveira
TRIBUNA DE MINAS
23 de Novembro de
2011 - 06:00
Meninos e meninas dividiram
com adultos as condições degradantes do Hospital de Barbacena
Por Daniela Arbex
Crime de
lesa humanidade. Talvez essa seja a expressão possível para definir a rotina do
Hospital Colônia de Barbacena onde, até a década de1980, crianças eram mantidas
nos pavilhões e recebiam tratamento idêntico ao oferecido aos adultos,
permanecendo, inclusive, no meio deles. Trinta e três meninos e meninas do
hospital psiquiátrico da cidade de Oliveira (MG), que havia sido extinto nos
anos 1970, foram transferidos para a unidade. Lá eles sentiram na pele os
maus-tratos das correntes, da camisa de força, do encarceramento e do abandono.
Deste grupo somente cinco vivem, entre eles Silvio Savat, que deu entrada na
Colônia com cerca de 9 anos, e Maria Cláudia Geijo, que chegou à instituição,
em 1974, aos 13 anos de idade, e permanece internada até hoje.
Silvio, fotografado por Napoleão
Xavier, em 1979, aos 11 anos, vestido de mulher e com o corpo coberto de moscas
na colônia deu ao autor da foto a impressão de ver um cadáver. Filho de uma
família de ciganos, ele e a maior parte do grupo foi transferido, a pedido do
psiquiatra Jairo Toledo, para o Hospital de Neuropsiquiatria Infantil, em Belo
Horizonte, em 1980, atual Centro Psíquico da Adolescência e Infância, onde
Silvio, aos 43 anos, ainda recebe atendimento no Lar Abrigado. "O Silvio,
como os outros, chegou aqui imundo. Vieram para passar um dia e acabaram
ficando a vida inteira. Quem os recebeu ficou chocado com o estado dos vinte e
tantos meninos de Barbacena. Aqui eles tiveram que aprender até como usar o
banheiro. Fizemos todo um trabalho de resgate da cidadania, inclusive com a
retirada de documentos que eles não tinham. Nenhum dos quatro que ainda estão
vivos fala, mas a gente entende o que eles querem, inclusive seus gritos. O
bonito de verdade é que eles não têm mais o olhar perdido", afirmou a
coodernadora do Lar Abrigado, Mercês Hatem Osório.
Quatro décadas de internação
Já Maria Cláudia, mostrada nua no
interior da unidade há 31 anos, ainda mora na antiga Colônia, atual Centro
Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, em um dos módulos residenciais da
unidade, hoje transformada em hospital regional.
Sem família, Maria Cláudia, com
exatos 50 anos, experimenta dias melhores do que aqueles da sua adolescência,
mas está entre os pacientes asilares de Barbacena, tendo dificuldades para
cuidar de si mesma. É uma das protegidas de Marlene Laureano, 56, funcionária
da instituição há quase 40, a quem chama de mãe. Marlene tem carinho especial
por Maria Cláudia e a trata por "neném". Ela, que testemunhou os
tempos de horror na unidade, foi uma das que tentou dar alguma dignidade aos
internos, levando às escondidas leite em pó, pago com o dinheiro do próprio
bolso, a fim de alimentar internos que sofriam também de fome. Eleita pela
comunidade do hospital como funcionária lição de amor, ela tem o olhar voltado para
o interior da instituição. "Esses pacientes são a minha vida."
Silvio, 11 anos, fotografado na
Colônia vestido de mulher e com moscas por todo corpo. Hoje ele tem 43 anos e
vive em Belo Horizonte; e Maria Cláudia Geijo, em 79 com 13 anos e hoje com 50
anos, uma das 33 crianças.
Filha de paciente foi doada ao nascer
Se crianças órfãs tinham Barbacena
como destino, os "filhos da loucura", feitos dentro do Hospital
Colônia - cerca de três dezenas - eram doados logo após o nascimento sem que
suas mães biológicas tivessem a chance de abraçá-los. Compreensível que, depois
disso, muitas mulheres tivessem, de fato, enlouquecido.
Sueli Aparecida Resende, deu entrada
na unidade, em 1971, aos 8 anos de idade, - ela era uma das crianças de Oliveira
-, em função de crises de epilepsia. Engravidou dentro do hospital, 19 anos
mais tarde, quando tinha 27 anos. Deu à filha o nome Débora Aparecida e lutou
como uma leoa para amamentar sua cria. Não conseguiu. Débora foi tirada dos
seus braços com dez dias de vida e, desde aquele episódio, Sueli tornou-se uma
paciente cada vez mais agressiva. A cada data de aniversário da filha, rezava
por ela e sonhava com o dia em que poderia tocar a menina e ver de perto alguém
que, afinal, era um pedaço seu.
Sueli morreu no início de janeiro de
2006, de infarto, aos 50 anos, privada de realizar seu sonho. Se tivesse
aguentado por mais um ano teria sido encontrada por Débora, hoje com 27 anos,
que a procurou desesperadamente, em 2007, logo que soube que sua mãe verdadeira
era uma paciente em Barbacena. Aos 23 anos de idade, Débora, doada a uma
funcionária do hospital, descobriu sua origem e tratou de resgatar o passado.
Entretanto, ao chegar ao antigo Hospital Colônia soube que a mãe havia falecido
poucos meses antes. "Descobrir a minha história foi muito importante,
porque, desde criança, eu carregava um vazio tremendo e me sentia deslocada no
lar em que vivia. Eu era uma criança triste e, somente aos 23 anos, descobri
minha adoção e também que meus familiares estavam envolvidos nessa mentira.
Quando soube da minha mãe, fiquei muito emocionada e fiz questão de
encontrá-la. Não deu tempo. No entanto, fui informada por funcionários do
hospital que ela me procurou a vida inteira", revela Débora.
Formada em letras, Débora reside hoje
em São João Del Rey com o marido e ainda não tem filhos. Para ela, falar de
Sueli é motivo de emoção. "Em momento algum senti vergonha dela. Ao
contrário, o que senti foi uma alegria imensa de saber, através dos
funcionários do hospital, que minha mãe me amou muito e quis ficar comigo. Com
essa descoberta, experimentei pela primeira vez o que pode ser um amor de mãe.
A referência de vida dela era eu. Lamento extremamente não ter sabido de sua
existência antes de sua morte. Meu desejo, se estivesse viva, era tirá-la de lá
e oferecer-lhe uma outra condição. Deram-me uma família, mas não pensaram na
dor da minha mãe, quando me arrancaram dela. Se tivesse tido a chance de
abraçá-la, diria e ela o quanto a amo."
Recentemente Eni Carajá esteve em Três Corações, na antiga colônia Santa Fé, onde o abandono é idêntico à grande maioria das ex colônias no país.
Passados mais de 25 anos a cada dia os Diretores e Superintendentes da FHEMIG orgão do Estado permanecem com a sanha de destruição do Patrimônio Público do Sanatório Santa Fé em Três Corações no Sul de Minas. Destelham pavilhões, deixa o mato tomar conta da area comunitária, permitem a extração de bens minerais, eucaliptos e outros, e além disso não permitem que a população de pessoas atingidas pela hanseníase ocupem os espaços vazios da Colônia.Até quando conviveremos com esta dilapidação sem que as autoridades acionem os responsáveis???
Vejam as fotos









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