Não sou uma profissional das "estatísticas".... Falo e escrevo com a realidade que vivencio.
Então, nós, os filhos que foram separados de suas famílias por conta do isolamento compulsório para pacientes de hanseníase, em sua exata maioria, continuam, após 40, 50 anos, sadios.
É, nós não tivemos hanseníase e os poucos irmãos de causa que adoeceram, contam histórias de busca pelos pais dentro de colônias e lá permanecendo, acabaram também como vítimas.
Daí alguém poderá me questionar que o isolamento então foi um benefício. Mas ele não foi.
Não há justificativa possível para o holocausto que promoveram no Brasil!!
Não há justificativa possível para o holocausto que promoveram no Brasil!!
Nós não tivemos hanseníase simplesmente porque não tivemos. Ponto. Que me perdoem os catedráticos da matéria, mas assim como hoje, fica doente quem tem que ficar doente.
Digo isso porque se buscarmos os inúmeros textos e documentos da época, vamos ficar pasmos com o descaso de todos aqueles que se envolviam nesta questão. Todos iam para reuniões, congressos, simpósios, falavam, falavam, escreviam, documentavam e continuamos "Hors concours" em incidência de casos de hanseníase e vamos sempre empurrando para cinco anos pra frente, o controle sobre ela.
A pressa era tanta em se livrarem de nós; a resposta política que eram obrigados a dar para a sociedade brasileira era tão comprometedora, que pensar nos filhos que não eram os seus, tornou-se uma prática abusiva, extrapolando qualquer conceito de dignidade humana por aquelas pessoas.
Pessoas que foram meus pais biológicos também, meus irmãos biológicos, eu, todos nós.
Quando sento aqui em frente ao computador para buscar mais e mais informações, vou me revoltando, vou me impacientando, porque parece que a mesma pressa que tiveram em nos separar, segregar, isolar e marginalizar, agora, em 2012, virou passado e passado já foi e portanto a pressa acabou.
Ok então: se não teremos mais "pressa", digo que estou aqui pra lutar e quando se guerreia em uma causa justa e digna de reparação, a calma, a paciência é a melhor política.
Só peço que não esqueçam que, assim como eu, que já farei 56 anos agora em maio, meus irmãos de causa também estão envelhecendo e junto à velhice, a morte é estatisticamente provável. Pois bem, nos eliminaram da vida uma vez nos separando e agora, penso eu, querem nos eliminar em números, pelo óbito. É muito forte isso; reconheço que estou falando duro.
Mas é exatamente o que sinto e não gosto de sentir isso.
Eu repito: não sou estudiosa ou catedrática do assunto. Falo e escrevo porque fui e sou, diariamente, atingida pela hanseníase e não pretendo morrer sem deixar aos meus herdeiros, uma resposta coerente e satisfatória ao escárnio que cometeram no passado com nossas famílias.
Sou teimosa, sou insistente, ao mesmo tempo que cuidadosa e paciente.
Mas sou filha que, indiscriminadamente, separaram do convívio familiar e não posso e não vou morrer ou deixar de lutar simplesmente porque a pressa dos que legislam nossas vidas acabou.
Floriano Lemos e Alice Tibiriçá, NÃO concordavam com a separação dos filhos e Floriano disse o seguinte em 1939: " ...amanhã, quando adultas, estarão condenadas a constituir um grupo à parte na sociedade e, como párias, terão que viver à margem de tudo e serão ex pensionistas do Asilo Santa Terezinha..."
É fato! Ele acertou!! Pena que sua voz foi ouvida tarde demais. Porém, nunca será tarde para lutarmos por uma reparação justa diante do que fizeram conosco!!
Floriano Lemos e Alice Tibiriçá, NÃO concordavam com a separação dos filhos e Floriano disse o seguinte em 1939: " ...amanhã, quando adultas, estarão condenadas a constituir um grupo à parte na sociedade e, como párias, terão que viver à margem de tudo e serão ex pensionistas do Asilo Santa Terezinha..."
É fato! Ele acertou!! Pena que sua voz foi ouvida tarde demais. Porém, nunca será tarde para lutarmos por uma reparação justa diante do que fizeram conosco!!
Com amor pleno
Teresa Oliveira

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