segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Vem do Espírito Santo, Cariacica, um desabafo e uma história



26 de agosto de 2011 16:23
Bom, eu também fiz parte deste “Holocausto Brasileiro”, pois nasci dentro de um hospital que ainda hoje permanece como
refêrencia para a hanseníase no meu Estado; fica localizado em Cariacica, Espírito Santo, porque os meus pais foram, com 12 anos de idade, pegos “à laço” e levados para o leprosário , que se chamava colonias , no interior de Mimoso do Sul e Muqui, que são dois municípios do Sul do Estado do Espírito Santo. Ali cresceram e namoraram dentro desta colonia e tiveram 3 filhos , eu , José Irineu Ferreira e Terezinha , já falecida com 2 anos de idade por falta de leite materno e outro irmão Herbert, também falecido no Preventório por falta de leite materno.
Esta seria a história, mas permanece uma interrogação: onde estão as Certidões de Óbitos dos meus irmãos?
Nasci dentro desta colonia e imediatamente fui transferido para os chamados Preventórios, com zero anos de idade, ficando
lá, preso, até os meus 18 anos , quando fui “convidado” para sair para o mundo, sem pai ou mãe.
Os tais preventórios eram entidades filantrópicas e dependiam de donativos  para o sustento de todos os internados, que eram 490.
Isto foi alarmante. Por que o governo na época não assumiu a responsabilidade com os filhos que nasciam nos hospitais e eram recambiados para os preventórios a qualquer custo e de qualquer jeito,
sem um planejamento estrutural , da alimentação , dos vestuários , do lazer, da cultura , quando, já após os 12 anos, nós trabalhávamos no cabo das enxadas para manter os arredores da instituição tudo limpinho , pois era um trabalho forçado , com medição de cabos da própria enxada para fazer o trabalho de carpinas e, se não o fizesse , levava chicotadas.
Foi muito árduo os meus momentos de infância, se é que pude ter infância; para mim isto sim que foi caracterizado o Holocausto,
foi os filhos que passaram , pois os pais tem até hoje a infraestrutura das colonias e que o governo tem o dever de mantê-los até a sua morte , mas os filhos internados compulsoriamente e a sua desintegração familiar não tem reparação , numa instituição ainda filantrópica, pois o governo da época deveria ter adotado o mesmo direito que os pais tiveram, ainda até hoje não foi mole; muitos de nossos irmãoszinhos se foram , como eu  mesmo citei a perda dois irmãos por falta de estrutura alimentar, que faltava neste preventório.
Mas Deus foi muito grande comigo e sempre me encaminhou para o
caminho correto e eu tenho muito a agradecer a Deus por eu existir e buscar a nossa reparação junto ao Ministério dos Direito Humanos e o Governo Federal, com uma indenização e uma pensão vitalícia , igual foi dado para os nossos pais, pois os exilados políticos tiveram este direito, nós também temos, porque fomos exilados compulsoriamente e mais a desintegração familiar.
Este é o meu desabafo para a sociedade brasileira conhecer.
Abraços a todos
Atenciosamente,
Jose Irineu Ferreira

Com amor pleno, todos unidos e focados
Teresa Oliveira


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