segunda-feira, 8 de agosto de 2011

II Encontrão dos Filhos Separados pelo Isolamento Compulsório - Bauru/SP

Irmãos e amigos do blog:
O que dizer do II Encontrão dos Filhos? Mais uma vez, estou sem palavras.
Nossa reunião aconteceu em um local maravilhosos em Bauru, com excelente estrutura, tudo muito bem organizado pelo nosso amigo Jaime, voluntário incansável, de lutas solitárias na região de Bauru. Mas eu acredito que ontem, Jaime pode perceber que nunca mais estará só: hoje, somos todos parceiros do trabalho que ele desenvolve e continuamos aqui, em conjunto com a Caixa Beneficente, unidos na questão da hanseníase.
Tivemos a participação em tempo real  dos amigos da Rádio Web do Interdef e o encerramento foi com um espetáculo maravilhoso do palestrante André Petraglia, sobre auto estima e realização pessoal.
Iniciamos ali, uma nova fase da Comissão dos Filhos em São Paulo: fase de recomeços, de tranquilidade, de focar para a frente, administrar o passado com atitudes afirmativas até chegarmos à vitória da indenização. Lembramos nossos irmãos do Espírito Santo, que também batalham neste momento por melhores condições na antiga colônia de lá e fizemos um minuto de silêncio em homenagem a todos que, esquecidos, já morreram e aos que, até agora, lutam conosco para que haja maior empenho nas questões da hanseníase. Lembramos também a causa dos sequelados, quando estaremos todos unidos para fazer valer as lutas que enfrentam nos atendimentos, nos seus direitos como cidadãos.
Não foi simplesmente um encontro de filhos: foi um encontro das famílias atingidas pela hanseníase em busca de união e respeito às nossas questões.
Histórias já contadas, lágrimas já se transformando em esperança, vamos nos preparar para o dia 12 de outubro e convidamos os filhos do Brasil a iniciarem esta nova etapa conosco. 
Saímos de lá às 17 horas, certos da missão cumprida.
Agradeço a todos os filhos que puderam estar presentes, à Diretoria da Caixa Beneficente, à nossa Coordenadora Estadual Terezinha Yano, sempre ao nosso lado.
Agora, vamos nos preparar para a mega festa dia 12 de outubro na Associação Santa Terezinha.
Abaixo, algumas fotos que Jaime já nos enviou.
Com amor pleno
Teresa Oliveira













Dia-a-dia

08/08/2011 07:46

Dia de histórias e superação

Filhos separados pelo isolamento compulsório se reúnem e relembram episódios longe dos pais, portadores de hanseníase

Juliana Lobato/Agência BOM DIAMargarete (à dir.) atenta às palavras de Tereza no encontro realizado ontem no auditório do Sest-Senat de BauruMargarete (à dir.) atenta às palavras de Tereza no encontro realizado ontem no auditório do Sest-Senat de Bauru
Agência BOM DIA
 A dona de casa Margarete Honório do Carmo Messias, 45 anos, e o irmão, José Honório do Carmo, 44, não tiveram uma infância como crianças normais. Filhos de pais portadores de hanseníase, eles foram tirados da família ainda pequenos.
“Eu praticamente criei o meu irmão. A gente não podia ficar com a minha mãe, então a gente ia no hospital [Lauro de Souza Lima] escondidos para visitá-la”, contou Margarete.
Pessoas com histórias bem parecidas  com a dos dois irmãos se reuniram neste domingo (7) de manhã, no Encontro dos Filhos Separados pelo Isolamento Compulsório realizado no Sest-Senat, em Bauru.
A mãe de Margarete morreu quando ela tinha 15 anos. “Eu casei com 15 anos para que minha mãe pudesse me ver casada, vestida de noiva. Era o sonho dela”, lembrou, emocionada. A jovem menina ficou apenas com o irmão, de quem cuidou. Hoje, ela tem quatro filhos e também cuida de um sobrinho.
“Foi muito doloroso. Por causa de tudo o que aconteceu, meu irmão acabou se envolvendo com drogas. Foi difícil, mas hoje conseguimos superar”, explicou.
ENCONTRO/ O evento realizado domingo (07) contou com filhos nascidos em Bauru e São Paulo, que vieram em três ônibus da capital, num total de 150 pessoas.
“É uma medida para deixar o pessoal mais para cima, frear um pouco essa coisa do sofrimento”, contou a assistente social Tereza de Oliveira, que coordena a Comissão dos Filhos Separados.
“Se não fosse a Tereza, ninguém conseguiria nada”, ressaltou Aparecida Luz Ferreira, 54, que veio da Capital para participar do encontro.
Tereza conseguiu reencontrar os seus familiares. Situação diferente da maioria das pessoas estiveram no evento.
“Eu sei que eu tenho irmãs em Campinas e em São Paulo, mas não conheço ninguém. Conheci meu pai no hospital, mas nunca soube da minha mãe”, explicou Carlos Aparecido Badin, 53, de São Paulo.
Informações
Telefone:  08000-26-2001
Site: www.morhan.org.br
Indenização é o foco da comissão
A Comissão reivindica indenização a todos os filhos junto ao Governo Federal. Em 2007, uma medida provisória autorizou o Poder Executivo a conceder pensão especial, mensal, vitalícia e intransferível a hansenianos submetidos a isolamento e internação compulsórios em hospitais-colônia até 1986.
40 milÉ o número de filhos no Brasil. No estado de São Paulo, são 10 mil.
Hospital-Colônia era o local de isolamento São 35 hospitais-colônia pelo país, que abrigavam em torno de  2 mil pessoas. Em Bauru, o Lauro de Souza Lima abrigava  portadores de hanseníase.


Bauru e grande região - Segunda-Feira, 08 de Agosto de 2011  
08/08/2011
‘Todos nós apanhávamos sem saber por quê’
Bruna Dias
Nem todo mundo sabe, mas quando a hanseníase atingiu o ápice de contaminação no Brasil, nas décadas de 30, 40 e 50, quem sofria da doença (conhecida na época como lepra) padeceu com a internação compulsória em asilos e, consequentemente, com sua separação da própria família. A aflição e a dor, inclusive, seguiram a trajetória de seus descendentes. Grande parte deles foi encaminhada a abrigos e orfanatos, sem direito a ter contato com os pais até 12 anos de idade. Muitas dessas crianças enfrentaram experiências traumatizantes no ‘novo lar’, como o fato de apanharem sem saber o porquê de funcionários das instituições para onde foram levadas.

Os relatos foram contados na manhã de ontem, em Bauru, que sediou o 2.º Encontro dos Filhos Separados Pelo Isolamento Compulsório, promovido pelo Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan). A sede do Serviço Social do Transporte (Sest) e do Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Senat) acolheu cerca de 150 pessoas com histórias parecidas. Vieram de diversas cidades como Itu, São Paulo, Barueri, Mogi das Cruzes, Lins, Andradina, Araçatuba, entre outras cidades. Muitas delas conseguiram reencontrar seus pais ou parentes.

Mas a aproximação não apagou as marcas da infância. Pudera. Todos os seis entrevistados pela equipe de reportagem afirmaram ter sido torturados nos orfanatos. Contam que eram obrigados a ingerir medicamentos sem saber o porquê. Por essa razão, informam, grande parte destes “órfãos” enfrentam alguma deficiência mental.




Descarga


“Eu sou Joris Divino Lupi, tenho 53 anos e sou nascido em Cocais. Meu pai e minha mãe tinham hanseníase e me tiraram deles assim que nasci”, contou. Joris cresceu e viveu até os 12 anos num colégio em Carapicuíba, local com quatro pavilhões destinados exclusivamente para crianças separadas de pais com hanseníase.

Soube de tudo o que tinha acontecido com ele ainda bebê, por meio de um prontuário. Viveu no local até os 12 anos. Relata ter sofrido, apanhado, torturado, assim como muitos dos que ali também viveram. “Eu me lembro que eles nos batiam e nós apanhávamos sem saber o porquê. É claro que tinham alguns meninos mais peraltas, mas quando algo acontecia, todos apanhavam”, contou com revolta.

“Por que nos tratar assim? Nos tiraram de nossa família para nos torturar? Era melhor ficar com os pais doentes. Até hoje não sabemos, mas tomávamos remédios para dormir. Minha cabeça não parava de se mexer e então eu levava tapas na cara. Assim fomos tratados por anos”, acrescentou Joris.

Quando tinha aproximadamente 7 anos, ele chegou a ser torturado. “Me lembro que o monitor que olhava os meninos me virou de ponta cabeça, colocou minha cabeça dentro da privada com resíduos e deu descarga”, disse. Tudo foi presenciado por Luiz Rosa de Jesus, hoje com 54 anos. Luiz e Joris não se conheceram dentro do colégio, mas com ajuda do Morhan. “Eu me lembro que eu abri uma fresta da porta e vi a cena. O monitor disse: não conte a ninguém, caso contrário acabo com você”, relatou.



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Hanseníase


Hoje, a hanseníase é uma doença que tem tratamento e cura. Em Bauru, pode ser diagnosticada e tratada no Instituto Lauro de Souza Lima, especializado em patologias de pele. Funcionários do instituto, como Jaime Prado, são voluntários da Morhan e auxiliam na promoção de eventos como este. “Nós queremos que as pessoas saibam que hanseníase tem cura hoje e que o preconceito também. Queremos que os filhos que ainda não encontraram os pais façam essa reaproximação”.

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