Refazendo os caminhos de Conceição da Costa Neves, sem sombras de dúvidas, percorro meu passado e consigo explicar o meu presente, o meu agora.
Relembrando, Conceição nasceu em Juiz de Fora, no ano de 1908.
A história que conto a seguir é repleta de encontros e me dão a certeza de que Conceição espelhou-se nesta verdade.
Eunice Sousa Gabi Weaver, nasceu numa fazenda de café, na cidade de São Manoel interior de São Paulo, em 19/09/1902, filha de Henrique Gabbi - carpinteiro, natural da província de Reggio Emilia, Itália - e de Leopoldina Gabbi - natural de Piracicaba/SP.
Sua vida foi totalmente dedicada aos portadores do mal de hansen e suas famílias.
Era portadora de beleza particular, impressionava pela altivez sem imposição, pela decisão sem arrogância e pela simplicidade repassada de nobreza.
Sua mãe, de origem suíça, falava muitas línguas, imprimia hábitos de estudo e princípios morais austeros.
Eram muito amigas, e quando ela morreu moravam em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.
Foi estudar em São Paulo e, durante as férias na fazenda, ocorreu este fato.
" Começo de século, São Paulo, fazenda de café, próspera. No terreiro, vagaroso como numa procissão, vem entrando um bando em farrapos, os rostos ocultos. São mendigos, doentes, associados na miséria, no abandono da vida, que apanham agasalhos e alimentos deixados na porteira. As crianças da Casa Grande são levadas para dentro, às pressas, portas fechadas, cortinas corridas. Uma das meninas se esconde. Súbito, uma mulher abandona o grupo e aproxima-se. Há nela um vago ar aristocrático, restos de nobreza, voz serena, escondida na sombra do grande chapéu de palha, não se vê o rosto:
- "Sou Rosa! Mesmo que não se lembrem de mim, quero agradecer. Meus pais dizem que me suicidei, é melhor assim, seria segregada; joguei minha roupa no rio, pensaram que me afoguei. Casei-me com aquele homem. Nessa vida de cigano é melhor ser um só".
Rosa Fernandes fora uma linda jovem, filha de vizinhos, que se tornou cobiçada donzela e que a todos encantava, mas que havia, a algum tempo, desaparecido. Esta moça tinha contraído hanseníase nos tempos de colégio."
Nunca mais Eunice esqueceria os "Olhos de Rosa" e a partir deste episódio, começava o seu trabalho em benefício dos nossos irmãos chegados, como mais uma Grande Servidora do Bem.
Impossível que Eunice e Conceição não tenham se conhecido! Estiveram nos mesmos lugares em tempos idênticos e choraram as dores de estranhos como nunca mais vi alguém chorar na vida, exceto minha mãe Yolanda, a única que conheci, que pelo fato de ter ido buscar-me no orfanato e oferecer-me seu colo e vida, bastou-me para sempre, já que a mãe biológica não pude conhecer.
Eunice, como Conceição, talvez não tenham feito nada por Rosa Fernandes, mas fizeram por muitas "Rosas" que desabrochavam dos seios de hansenianos e que por enfermidade de seus pais não podiam permanecer com eles.
Eunice, como Conceição, talvez não tenham feito nada por Rosa Fernandes, mas fizeram por muitas "Rosas" que desabrochavam dos seios de hansenianos e que por enfermidade de seus pais não podiam permanecer com eles.
Eunice, após casar-se, foi para Juiz de Fora, esteve no Rio de Janeiro, percorreu passos que Conceição também deu.
Eunice trouxe o Serviço Social para o Brasil em 1958 e em 1981, formei-me como Assistente Social, sempre acreditando que uma grande causa surgiria em minha vida, distante naqueles tempos em imaginar o quanto tudo estava sendo lapidado para este momento que estou escrevendo.
Eu sabia que falar de Conceição da Costa Neves, me emocionaria, porque a sinto em meus atos; percebo sua presença quando determino que tudo vai acontecer de melhor para todos nós. E agora, descubro Eunice.
Quantas mulheres fantásticas para que possamos extrair o melhor e muitas vezes nos acabrunhamos em depressões insignificantes diante de tanta história que estou bebendo como a um gole de vinho esta semana.
Conceição e Eunice, por onde andaram, procuraram conhecer de perto o problema da hanseníase, o que em relação a ela se havia feito e o quanto restava por se fazer.
Eunice, assim como Conceição em São Paulo, fundou em Minas Gerais a Sociedade de Assistência aos Lázaros, pois, em Minas Gerais, nesta época, o problema da hanseníase era terrível: o trem passava de madrugada, o vagão de segunda classe cheio de doentes encaminhados ao único leprosário em Belo Horizonte, o Santa Isabel; e ela levava à estação, roupas, cobertores e refeições.
A recomendação era sempre a mesma: "Dona Eunice, tome conta de nossos filhos, não os deixe passar fome, não permita que fiquem doentes com esta terrível moléstia".
Aquilo ficava em seus ouvidos.
Ambas sabiam distinguir entre o valor e a ciência e tinham certeza de que a hanseníase não era hereditária e Eunice fez sua primeira campanha para organizar preventório, mais tarde, transformados em educandários, com a preocupação de educar crianças sem recalques, fazendo-as participar da comunidade em condições normais.
Infelizmente, a ação séria e dedicada destas mulheres, foram ao longo do tempo sendo deturpadas e usadas para outros fins que não o amor e nós, os filhos que foram separados ou deixados para trás, éramos as cobaias daqueles que eram pagos para trabalhar bem e que na maioria das vezes nos humilhavam com diversas crueldades.
Naquela época, a classe política se esquivava do assunto pois acreditavam que a causa da hanseníase não daria frutos políticos.
Uma das passagens mais interessantes de Eunice durante as construções dos Educandários se deu no Amazonas.
Eunice estava no canteiro de obras da futura instituição que iria abrigar os filhos dos hansenianos daquela região quando, de repente, um bando de jagunços aparece e tenta impedir a obra sob a alegação que não queriam um leprosário no local, pois na região não existia hanseníase.
Eunice então, sugeriu ao líder dos jagunços que subissem o rio onde, em poucas horas ela lhe mostraria algum doente, caso contrário, não construiria o Educandário.
Nesse instante, pegaram um barco e subiram o rio.
Após várias horas percorrendo o referido rio, nenhum doente foi encontrado.
Os jagunços, com sua costumeira arrogância e cheios de si por terem conseguido impedir a construção do leprosário, resolveram dar a questão por encerrada.
Entretanto, num determinado momento, Eunice vendo uma choupana, disse: "Pare, aqui tem hanseníase!"
Ao descerem do barco concluíram que dentro da choupana haviam mais de trinta doentes.
O líder dos jagunços, atônito com o fato ocorrido, abandonou as suas funções de jagunço e passou a ajudar na construção do Educandário.
Surgia naquele momento o primeiro coordenador do Educandário de Manaus.
Sofreu, como Conceição sofrera, entretanto, incompreensões e experimentou amarguras sem fim. Sempre trabalhando, faleceu em 9 de Dezembro de 1969, aos 67 anos, como sempre vivera: dedicada ao próximo.
Conceição teve filhos e todos morreram e Eunice não os teve.
Será?
Conceição e Eunice tiveram filhos demais por este Brasil e pelo mundo, amamentaram os corações de muitas crianças em desespero de abandono e tem para si esta geração que esperamos, coloque de vez uma pedra na questão da segregação por causa da hanseníase.
Absolutamente nada é ou foi por acaso em nossas vidas.
Portanto, não o será na vida de ninguém.
Teresa Oliveira
Parabéns meninas (os) Barueri está arrebentando. O blog ficou lindo!
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