Não estou atrás de “glórias”. Busco JUSTIÇA!!
Não é segredo para ninguém, que a
partir do término oficial do Isolamento Compulsório, o Governo do Estado de São
Paulo, fosse quem fosse até chegarmos em 2012, virou as costas para as ex colônias
e simplesmente gastou o dinheiro público indiscriminadamente com água, luz,
cestas básicas, cestas vivas, cestas cruas, cestas todas que pudessem calar os
moradores destes locais, como se fossem porcos ou patos, em busca simplesmente
de comida e água.
Enquanto isso, quem mora fora
destes locais, sempre teve que trabalhar e muito para conseguir pagar sua água,
sua luz, seu aluguel, sua comida, seu tratamento médico. E muitos também
tiveram e continuam tendo hanseníase, porque, ao contrário do que querem que
acreditemos, nós os leigos, os afastados até algum dia desta realidade,
hanseníase continua fazendo vítimas, mesmo tendo cura. É real, existe e ninguém
está livre dela. NINGUÉM!!
Pronto: com esta “benevolência”,
o Governo conseguiu, sem sujar as mãos, perpetuar o preconceito, o estigma,
instigando as pessoas “de saúde” (sic) a considerar que a vida dos ex pacientes
e pacientes de hanseníase, mesmo depois do Isolamento Compulsório, era cercada
de mordomias.
Terras vastíssimas, produtivas,
valorosas, começaram a servir de moeda de troca para as Caixas Beneficentes
(outra armadilha criada pelo Governo) que, protegidas por leis que dizem, são
legíveis e cuidam do bem estar de todos os pacientes e ex pacientes, formou
fortunas que nunca mais as famílias atingidas pela hanseníase, seus reais
herdeiros, poderão reaver. As fortunas existem, mas: a quem se destinam e quem
as herdará? Precisamos de nomes, precisamos de coragem para encontrar os “benefícios”
aos reais beneficiários.... Uma lupa!
Sendo assim, terras começaram a
ser invadidas, casas começaram a ser alugadas, comercializadas e, com o advento
da Lei 11.520, mudaram-se para o “berço explêndido” das ex colônias todos os
tipos de incautos, de estelionatários, em busca de procurações para serem
tutores das pequenas “recompensas” que os pacientes de hanseníase receberam do
Governo Federal pela carnificina cometida no passado. Muitos viúvos, pessoas
abandonadas a décadas por suas famílias, caíram em mãos pesadas de ladrões com
boas falas e até hoje muitos permanecem à mercê destes restos de gente, que
acabam vivendo do que roubam de quem nunca pode viver fora das colônias. Não
viveu na sociedade porque era proibido e doente. E quando pode viver fora das
ex colônias, já tão atingido e atordoado, não quer mais sair. Então, se não
sai, alguém sairá por ele para cumprir suas funções de cidadãos. Assim, muitos
perderam o que chamam do “dinheiro do Lula” para estes infelizes que infestaram
todas as colônias deste país em busca de dinheiro fácil.
Nesta linha de pensamento, surge
a questão não menos triste e injusta, de nós todos, os filhos que foram
separados de seus pais porque não podiam conviver com os doentes. E outra “categoria”
de sofridos e explorados, da qual faço parte, surge para gritar seus direitos.
Muitos destes filhos foram para dentro das ex colônias e hoje também são
pacientes ou ex pacientes de hanseníase ou simplesmente acompanhantes de pais e
mães que nunca conviveram, mas que biologicamente são famílias de sangue,
destruídas e desamparadas pelas inconsequências de uma sociedade que separa
aquilo que tem medo e que não entende.
Novo impasse.
E, há 10 anos atrás, quando pude
conhecer minha história, foi natural e instintivo ir para dentro das colônias
também e, no ímpeto do meu “desassossego social”, inconformismo genético das
atrocidades humanas, busco uma luz, uma mão, um caminho que nos auxilie sair
desta lama e indiferença, porque para mim pouco importa o partido político;
preciso sim de pessoas que desejem fazer a diferença e que possam sentir o
quanto esta situação sem solução há décadas precisa ter um rumo definido e
concreto.
Mas...Onde está esta pessoa? Eu
ainda não sei.
Só sei que eu e minha família
biológica começamos agora, a viver a realidade do “microbacterium leprae” e
preciso ganhar tempo para conseguir justiça.
Qual justiça?
Que as ex colônias sejam
preservadas para o fim que foram criadas;
Que as indenizações já pagas da
Lei 11 520 tenham um acompanhamento do Governo Federal para que não terminem em
mãos erradas;
Que os filhos separados recebam
logo o que lhes é de direito e parem de exigir e querer tantos “estudos e
estatísticas” para algo que é claro demais e legível e JUSTO!
Que sejamos tratados como cidadãos
brasileiros e, desta forma, nossos direitos existam de fato.
Estou cansada de tanto ir e vir;
de contar minha história e a história de todos os meus irmãos de causa mil
vezes para quem não quer saber mas ouve porque foi obrigado a ouvir, porque assessora
quem, provavelmente, vai ter que entender também, para depois de mil anos,
chegar à conclusão que, “talvez”, tudo isso seja mesmo verdade e assinem nossa
indenização.
Outro Natal está chegando.
Espero que todos aqueles para os
quais eu fui obrigada a contar mil vezes a nossa história, pensem bem quando
estiverem no shopping gastando seu cartão de crédito, que existem muitos
brasileiros com o mesmo direito, mas estão, ainda, à mercê de uma “bondade” em
aceitarem nossa reivindicação.
Somos brasileiros, votamos,
trabalhamos, temos famílias e os mesmos desejos e sonhos de toda a sociedade. A
única diferença entre nós e vocês, é que NÃO permitiram que tivéssemos pai e
mãe quando deles precisamos para crescer e ter o direito do amor.
Teresa Oliveira
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