quinta-feira, 7 de junho de 2012

CIDADANIA E DIREITOS HUMANOS
Parlamentares e autoridades defendem reparação do Estado aos filhos de portadores de hanseníase
Luiz Osellame - MTB 9500 | Agência de Notícias - 13:22-06/06/2012 - Edição: Letícia Rodrigues - MTB 9373 - Foto: Galileu Oldenburg
Foram abordados aspectos históricos da política do Estado brasileiro para portadores da doença
A Comissão de Cidadania e Direitos Humanos realizou audiência, nessa manhã (6), para debater o direito à reparação dos filhos de pessoas atingidas pela hanseníase. Parlamentares e autoridades defenderam que o Estado brasileiro repare os danos causados aos filhos de hansenianos. 
 
O presidente da CCDH, deputado Miki Breier (PSB), destacou a importância da audiência pública que trouxe à tona o debate fundamental sobre a necessidade de reparação aos fílhos de pessoas atingidas pela hanseníase no Brasil e também aqui no Rio Grande do Sul. "Tivemos neste caso um crime de Estado com a alienação parental entre as decadas de 20 e 80, onde os filhos eram separados dos pais portadores de hanseníase e que o Brasil já reconheceu", esclareceu Miki, mas defendeu que ainda é necessário reparar financeiramente os danos sofridos pelos filhos.
 
Miki destacou que os encaminhamentos surgidos da audiência pública desta manhã são: uma ação junto ao governo federal para que a reparação aos fílhos de portadores de hanseníase seja feita o mais rapidamente possível; debater com as secretarias estaduais da Saúde e de Direitos Humanos a implementação de políticas públicas voltadas ao atendimento de filhos de hansenianos que, por conta da segregação a que foram submetidos, hoje sofrem com problemas psicológicos e ainda se encontram à margem da sociedade; além de audiência no dia 11 de junho, na Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, para acompanhar todas as consequências deste debate sobre a reparação aos filhos de portadores de hanseníase.
 
O deputado Adão Villaverde (PT), proponente da audiência pública, salientou que o encontro foi solicitado pelos filhos de portadores de hanseníase, que ainda sofrem consequências de uma política de Estado que segregou milhares de brasileiros, tirados do convívio de seus familiares e colocados em instituições de acolhimento por décadas. "O país vive um momento propício para, ainda que parcial, fazermos um reparo a toda esta postura e conduta social equivocada que tivemos por um largo período em relação às pessoas e familiares atingidos pela hanseníase", sustentou o parlamentar.
 
Villaverde sugeriu que os encaminhamentos sejam feitos junto ao Estado brasileiro com relação à indenização aos filhos de portadores de hanseníasde e de trabalhar, no âmbito estadual, a reparação do ponto de vista do tratamento e acompanhamento destas pesoas com políticas públicas capazes de atender as suas necessidades atuais de saúde.
 
Manifestações
A primeira-dama do Estado, Sandra Genro, parabenizou a todos e destacou que a audiência pública é um passo muito importante para que o Estado brasileiro repare os danos causados aos filhos de portadores de hanseníase. "Não vamos esquecer que isto é uma luta contra o preconceito. O preconceito não é so contra as doenças transmissíveis, mas é contra a pobreza, contra o homossexualismo e nós, neste governo, estamos tentando nos sobrepujar a todo o preconceito", sublinhou.
 
O coordenador nacional do Movimento Nacional das Pessoas Atingidas pela Hanseníase, Artur Custódio, apresentou os aspectos históricos da política pública do Estado brasileiro para os portadores  de hanseníase e para os seus filhos. Ele destacou que, embora desde a década de 40 a doença é curável, o Estado implementou um a política pública de segregação que atingiu milhares de brasileiros. Para Custódio, a luta de décadas produziu seus primeiros resultados quando, em 2007, o então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, assinou um decreto reconhecendo o erro do Estado brasileiro e criando a possibilidade de reparação financeira para os portadores de hanseníase que foram abrigados em hospitas colônias.
 
Custódio relatou que, até hoje, em torno de dez mil portadores de hanseníase já recebem uma pensão vitalícia do Estado brasileiro, mas ainda é necessário que este benefício seja estendido aos filhos de hansenianos que foram separados de seus pais após o nascimento e foram encaminhados para casas de acolhimento. 
 
Antônio Fernandes, representante da Secretaria Estadual da Saúde, destacou que a pasta tem procurado oferecer ao internos da Colônia de Itapuã toda a assistência em saúde necessária para a reparação de danos e sequelas, mas reconheceu que ainda existem lacunas que precisam ser reparadas. Ele anunciou que o governo estadual está trabalhando para o tombamento dos prédios da Colônia de Itapuã como forma de preservar a história.
 
Paulo Humberto Gomes da Silva, presidente do Conselho Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul, sublinhou a importância do debate e que a instituição apoia incondicinalmente a luta pela reparação de um crime de Estado cometido contra portadores de hanseníase e contra seus filhos. "A democracia brasileira está amadurecendo rapidamente e temos a certeza que a presidenta Dilma estará resolvendo esta questão ainda no seu governo, mesmo que o reparo financeiro seja apenas um aspecto desta questão", frisou.
 
A representante da Defensoria Pública do Rio Grande do Sul, Andréia Paz Rodrigues, sublinhou que a indenização para os filhos de ex-pacientes consta da  resolução do Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) para enfrentar o preconceito contra a hanseníase. Ela relatou que existem no Brasil cerca de 20 mil filhos de portadores de hanseníase que foram separados dos seus pais.
 
Para a defensora, a indenização é uma forma de cobrar do governo desculpas pela maior política brasileira de alienação parental, ou seja, uma política higienista de segregação e isolamento que ocorreu entre as décadas de 20 e 80. Ela destacou ainda que o Brasil é o único país que ainda não atingiu o padrão de eliminação da hanseníase com menos de um doente para cada dez mil habitantes.  
 
A representante da Defensoria Pública também colocou a instituição à disposição dos fílhos de portadores de hanseníase para orientar na busca de documentos existentes e que serão necessários para comprovação da sua condição e, consequentemente, quando for regulametada, possam receber a reparação. 
 
Reunião ordinária
Antes da audiência, os parlamentares aprovaram, em reunião ordinária, o requerimento de audiência pública do deputado Jeferson Fernandes (PT) para tratar sobre Método Apac de Execução Criminal .
 
Participaram da reunião ordinária e audiência pública os deputados Álvaro Boessio (PMDB), Adão Villaverde (PT), Jeferson Fernandes (PT), Ana Affonso (PT), Adolfo Brito (PP), Paulo Azeredo (PDT), Luciano Azevedo (PPS) e Ronaldo Santini (PTB).
 

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