
Nunca tive Dia das Mães.
Meu nome é ou era Maria José Amélia. Sou a mulher da foto, com amigos da ex colônia. Uma de minhas filhas conseguiu estas fotos na primeira vez que foi em busca da sua origem e da origem de nossa família.
Nasci em Caconde, Estado de São Paulo, mas minha família veio do Paraná, migrando por melhores condições. Sempre fomos agricultores, no trabalho diário com a terra.
Aos 23 anos de idade, isto lá pela metade dos anos 40, comecei a ter dormências nos braços e nas pernas e algumas manchas pelo corpo. Eu estava com hanseníase.
Fui isolada imediatamente e comecei a viver em mundo de prisão e sofrimento, de onde só saía quando me arriscava e fugia. Quando me recapturavam, lá ia eu sofrer as dores da doença e da cadeia que existia na colônia.
Como eu não podia sair dali, acho que minha família me abandonou e eu, um ser humano igual a todos, acabei formando outra família dentro da colônia. Destes meus companheiros, tive filhas e talvez filhos. Mas não posso dizer com certeza porque assim que nasciam eu só podia ouvir o chorinho deles e nada mais. Sei quantas vezes fiquei grávida, quantos partos eu tive, quantas vezes fui mãe. Mas meus filhos foram arrancados de mim.
Mais de 50 anos se passaram e três filhas minhas se conheceram em 2010, através da mobilização do MORHAN. Elas não sabiam da existência de nossa família, porque foram para um orfanato e de lá, uma foi adotada aos quatro meses e as outras duas ficaram literalmente abandonadas e esquecidas.
Pedi diversas vezes por carta, que me permitissem ver minhas filhas. Em vão.
Pedi também que me dessem o endereço da pessoa que havia adotado uma delas sem a minha autorização e me negaram também.
Vivi o resto dos meus dias ou ainda os vivo, sem conhecer meus filhos. Nos anos 80 eu fugi em definitivo da ex colônia Santo Ângelo e disse à minha amiga de quarto Amezina, que ninguém me encontraria nunca mais, já que eu nunca poderia ter o direito de conhecer os filhos que gerei e pari. Fui embora e até hoje ninguém sabe meu destino; ninguém sabe dizer se estou viva ou morta.
Então, neste Dia das Mães de 2012, data que uma das minhas filhas faz aniversário e eu sei disso porque fui eu quem pariu, peço às pessoas que, se me conhecem, se me viram, se sabem algo sobre mim, informem minhas filhas, por favor. Eu sei que elas ainda desejam ter um Dia das Mães ao meu lado, mesmo que nunca tenhamos nos conhecido, mas cada uma viveu no meu ventre por nove meses e saberá identificar o aconchego de mãe se alguém puder ajudar a encontrar-me.
56 anos se passaram, mas um dia, em algum lugar, eu irei conhecer você Maria José, porque se o mundo nos separou, Deus com certeza nos reunirá de algum jeito, de alguma maneira, mas sinto, como de fato no seu ventre estive, que ainda teremos um Dia das Mães.
Feliz Dia das Mães a todos os voluntários do MORHAN.
Com amor pleno
Teresa Oliveira
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