terça-feira, 31 de maio de 2011

Sonia Arantes: uma história que precisa ser contada!



Minha História
Bom dia meus irmãos e amigos do blog!
Meu nome é Sônia M. Arantes Aguiar. Fui criada no Educandario Santa Terezinha, no inicio de 1959, até 1977. Sou a segunda filha de 12 irmãos. Meus pais se conheceram dentro do Pirapintingui, se casaram, viveram sempre lá dentro, de certa forma "protegidos" do mundo e por fim falecerem.
É um resumo dentro de muitas coisas que ocorreram.
Quando criança, tinha 5 anos de idade, uma monitora do Santa Terezinha, pedia para que nós meninas ficássemos de barriga pra baixo no chão, para que ela andasse por cima de todas nós. Algumas meninas não aguentavam e faziam suas necessidades, em suas próprias roupas, e daí o castigo piorava; e era quando apanhavam.
Não tínhamos privacidade, passávamos por constrangimentos. Uma delas, era quando íamos tomar banho, era tudo aberto, misturavam meninas pequenas com meninas maiores e as irmãs ficavam só vendo nós tomarmos banho. Nunca respeitavam nossa dignidade e sentimentos,  não tinhamos direito de expôr o que sentiamos.
Lembro de uma outra situação, que todas nós meninas passamos, por um exame, para ver se nós tinhamos  relações sexuais com os meninos. Mas nós não tínhamos esta imoralidade que pensavam, as irmãs faziam tudo isso e ficavam entre elas. Logo fui para a Adoção, quando já tinha mais ou menos 13 anos de idade, e fiquei até aos 15 anos. Fizeram de mim uma empregada, para fazer tudo, levantava as 5h da manhã e era a ultima a dormir geralmente ás 00h00. Muitas das vezes também, dormia sem tomar banho, porque não aguentava ficar em pé alguns segundos a mais, desmaiava de tanto cansaço. Tinha só duas mudas de roupa, enquanto a filha do casal, tinha um guarda roupas cheio.
Nas horas das refeições tinha vontade de comer, mas não tinha liberdade de comer a vontade. Logo a familia achou jeito de me devolver para o Educandário, achei ótimo, embora quem voltasse para o educandário teria o seu castigo. E tive um castigo muito bom fiquei tres dias no quarto sem ver a luz do sol, mas achei muito bom, pois embora ter sido uma escrava... tive um grande descanço. E quem ficou me vigiando naquele dia foi uma que se chama Fatima, e que está presente aqui hoje. Fiquei ainda no Educandário por mais dois anos, onde completaria 18 anos, em seguida encontraram os meus familiares, que eu não conhecia, por parte de meu pai, onde conheci o meu irmão mais velho, que foi criado desde quando nasceu.
Foi um começo de  uma vida nova, que tive que trabalhar arduamente, e onde tive que ajudar a cuidar de meus irmãos e ainda estudando. Comecei a visitar os meus pais, o que não era fácil, pois tinha que ir e voltar no mesmo dia. Percebi que meus pais estavam bem acomodados devido a situação boa que tinham, qualquer pessoa não queria sair pois tinham uma vida sem responsabilidades, sem preocupações, tinham todos os recursos que nós filhos não tivemos. Enquanto isso nós filhos tivemos que  nos virar de uma forma ou de outra. Meus pais chegaram a ter alta do hospital, mas não quiseram sair.  Nóssos pais até pensaram em nos colocar na Febem.
Até entendo essa situação, pois não foi criado um vínculo de amor e afeição familiar, por isso agiam desta forma.
Logo, meu pai faleceu em 1989, ficou mais difícil para nós filhos. Queriamos aproximar-nos de nóssa mãe, mas foi dificil!!! Porque nada podia naquela época, e ficou mais fácil para os aproveitadores cuidarem de tudo para ela, faziam a cabeça dela dizendo que os filhos só á iam visitar para pedir o que tinha. Ela não recebia os seus filhos com alegria, só com cara feia, sempre nos perguntava se iamos ir embora no mesmo dia.
A própria colonia nunca se quer chamava a fámilia para conversar, e esclarecer os fatos ocorridos. Por ultimo, a minha mãe sofreu um acidente dentro de casa, não fomos avisados do ocorrido, e ficou ainda uma semana viva sofrendo, e logo morreu. Só fomos avisados depois depois de um tempo. Até hoje ninguem esclareceu o que aconteceu. Agora eu pergunto: "De quem é a culpa?"
Hoje, procuro viver o presente. Deixamos de ser crianças, e alguns hoje são pais e maes de filhos. Nós procuramos fazer o que é melhor para eles, jamais gostariamos, que passassem o que já passamos.


Irmãos e amigos do blog:
Espero que com estes relatos, saibamos mesmo ponderar o justo no momento da indenização, porque não podemos aceitar migalhas, mas sim queremos e temos o direito da reparação moral e financeira. Somos cidadãos brasileiros!
Com amor pleno
Teresa Oliveira


Um comentário:

  1. Depois de ler a reportagem no Jornal Estadão de hoje,me veio a mente uma única pergunta: -"Em nome de Deus é que se batia,se maltratava??" Sim ,porque como freiras que "servem" a Cristo podiam ser tão más e tão desprovidas de sentimentos????Crianças que apanhavam sem motivo,crianças que eram exploradas em nome de dinheiro,crianças,crianças...apenas crianças!!!!alguem parou pra pensar que elas eram totalmente inocentes???As freiras,as ajudantes,todas elas que estavam nos "Educandários",estavam lá para maltratar e com um crucifixo no peito!!!!Tenho certeza que Deus não aprovou isso ,Deus não pediu que elas batessem,humilhassem em nome dele.Fizeram isso porque????Os funcionários e todos que estavam dentro destes orfanatos...todos sem exceção,eram podres de alma e de espirito!!!Será que nenhum deles tinha consciência do mal que faziam para estas crianças???Hoje todos homens e mulheres que nunca mais esqueceram o que passaram;marcas que não sairam com nenhum banho,nenhuma troca de roupa,nenhuma mudança de cidade;marcas que estão na alma de todos!!! Devia ser feito uma "acareação" digamos assim,colocar frente a frente o Milton ou os outros filhos,para que estas pessoas que maltrataram,exploraram,bateram,pudessem olhar nos olhos de cada um,e perceber que o olhar deles não trás raiva,más muita,muita tristeza e mágoa...Dinheiro nenhum no mundo paga o que sofreram,alem de não terem familia,tiveram "carrascos"...
    Vergonhoso,lamentável,simplesmente inacreditável que tenham acontecido tantas atrocidades no nosso País!!!Pensei que Hitler vivia na Alemanha...más pelo visto ele tinha muitos simpatizantes da sua causa no Educandário Santa Terezinha,e outros tambem!Curioso é que o nome é de uma SANTA gente!
    E lá o que existia eram demônios disfarçados e cobertos com um hábito...Estou indignada e perplexa com tudo que venho acompanhando,más é necessário que o mundo e não só o Brasil saiba que tudo isto aconteceu!E se fossem eles,os funcionários,as Freiras, que tivessem nascido de pais doentes??será que iam aprovar que alguem fizesse isso com elas também? Cristo nunca julgou,nunca humilhou,ele disse: -"Amai-vos uns aos outros" e não, maltratem as crianças!!!!Onde estava o amor destas pessoas????onde estava o juramento que fizeram de servir a Deus???e por fim :-onde estava DEUS no coração dessas pessoas????

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