Irmãos e amigos do blog:
Não quero polemizar, mas preciso dizer: o que fizeram com nossas famílias, atingidas pela hanseníase, não tem conserto.
A doença tem remédio; o preconceito tem a nossa luta; mas as famílias, estas infelizmente foram desfeitas.
Como meu compromisso surge de todo um contexto, às vezes esqueço que sou parte deste esfacelamento.
Meu pai biológico suicidou-se ingerindo veneno para matar ratos no ano que nasci, 1956. Nasci em maio e ele morreu em dezembro. Será que sabia de mim? Acho que não.
Minha mãe biológica abandonou o Santo Ângelo em 1988, dizendo que ninguém mais a encontraria neste mundo. Doente, talvez não tenha sobrevivido.
Aliás, busco na verdade um corpo, enterrado em algum cemitério deste país; o corpo de minha mãe biológica.
E busco porque minha irmã Marisa sente muita falta de nunca, absolutamente nenhum dia de sua vida, ter tido uma mãe que ela na verdade tinha, mas não sabia. Alguém que penteasse seu cabelo, escolhesse um vestido, um sapato; alguém até que a colocasse de castigo...Alguém que pudesse chamar de mãe!
Eu pude ter uma mãe; adotiva, mas que me amava muito e através dela pude chamar alguém por este nome tão significativo: mãe.
Então, um corpo, um caixão que seja, mas que minha irmã, neste caso, possa velar, enterrar, cuidar em algum cemitério. Mórbido? Não, apenas real. Se as pessoas podem ter parentes enterrados em cemitérios para ir visitar, minha irmã tem este direito também!
Eu oro a Deus todos os dias, para que estas pessoas que "decidiram" assassinar nossas famílias, encontrem paz no coração.
Nunca havia pensado desta forma, mas é verdade: mataram nossas referências biológicas e com isso tiraram o direito de nos reconhecermos em alguém; quando muito em um irmão.
Por isso mesmo eu quero que este Encontrão dos filhos em São Paulo seja nosso momento exclusivo de confraternização e reencontros, porque a nossa essência, nossa fibra e persistência, NINGUÉM conseguiu "isolar compulsoriamente".
Com amor pleno
Teresa Oliveira
Mas minhas irmãs não tiveram.

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