São meus irmãos que foram separados pelo Isolamento Compulsório, precisando falar, desabafar as dores que a separação da família, o isolamento em "educandários" e a discriminação na sociedade, marcaram em imensas cicatrizes.
Vou confessar uma coisa: eu "detestava" que me chamassem de Terezinha, afinal meu nome é Teresa.
Mas sou chamada assim todos os dias e com tanto carinho, que até acostumei e por fim, me familiarizei com este nome, porque quando ouço no telefone alguém perguntando: - Alô! É a Terezinha? Eu sei, é alguém precisando muito ser ouvido e eu estou no mundo para servir mesmo. E por incrível que pareça, eu ouço. Alguém acostumada a falar e falar demais, aprendendo a ouvir. Haveria trabalho melhor ou gratificante do que este? Sou muito agradecida por ter que levá-los, assim juntinhos, no meu coração e na minha existência, sentindo que, hoje, sou uma pessoa simplesmente grata, nada mais.
Por outro lado, ouvir várias vezes em um dia as dores dos outros, me faz pesquisar, refletir, buscar respostas. Meus dias e noites são incansáveis.
Por que não podemos trabalhar a hanseníase como uma causa para a vida?
Por que precisamos falar de hanseníase com certa compaixão, dó?
Não posso pensar assim. Se tenho trabalhado duro para que pelo menos o Brasil conheça a nossa história, o nosso holocausto, tenho obrigação de ser portadora de boas notícias, de boas causas, de novas escolhas.
Nós, filhos que tiveram os pais em algum momento da vida ou pela vida toda tratando-se de hanseníase, não somos portadores de doenças: somos portadores de fé, de certezas, testemunhas vivas de que a hanseníase não é hereditária. Por que o preconceito nos atinge até hoje?
Por que as pessoas que se aproximam estão sempre tensas, desejando perguntar somente pelo contágio da doença? Muitas vezes nem perguntam nosso nome, quem somos... Só a doença pela doença os incomoda. Por que não pesquisam antes de nos encontrarem? Nós não somos enciclopédias, sejam elas eletrônicas ou não! Somos pessoas comuns, iguais a todas as outras que estão aí, dentro dos carros, nos trens, no metrô, nos aviões...Somos de executivos a mendigos, mas somos seres humanos apenas.
A sociedade não pode e não tem o direito de nos marcar para o resto de nossas vidas.
E quando estamos aqui, na luta, no enfrentamento para conscientizar as pessoas sobre a eliminação da hanseníase, estamos tentando fazer as pessoas entenderem que a doença é contagiosa no coração dos ignorantes, daqueles que nos vêem como parte excluída de um todo.
Para que outras crianças não sejam separadas, maltratadas, até inutilizadas para a vida, é que estamos presentes e atuantes, no objetivo único de exigir nossa reparação moral e financeira, sobre parte das perdas e danos que o egoísmo e a ignorãncia de muitos provocou.
Nós não queremos falar da hanseníase para a mutilação, para a dor, para a amputação.
Mas estamos trabalhando por uma causa que fará da hanseníase uma mutilação do preconceito, uma dor da consciência e uma amputação da ignorância.
Com amor pleno.
Teresa Oliveira

Seja louvadas e aclamada sua palavras Tereza!
ResponderExcluirHá em cada um de nós, filhos separados, a alma com cicatrizes que o tempo, esse o senhor das conformidades, o senhor da restauração, o senhor do esquecimento, o senhor das cicatrizes, não consegue aliviar nossas dores!.
Todos, sem distinção de status financeiro, intelectuo ou moral, que foi filho separado, por conta da lei nro. 610 de 1949, tem em si essa alma a cicatrizar, que o tempo não foi capaz de operar, mas que o homen, doutor da lei, há de alguma forma reparar essa cicatriz. E fazer ecoar aos quatros cantos a saga dos familiares hansenianos e seus filhos compulsoriamente separados.
Obrigado Tereza, nossa co-irmã, que bravamente nos faz ressurgir do sofrimento da separação.
Carlos Ramalho
Ola Tereza
ResponderExcluirA discriminação aos atingidos pela hanseníase existe, é real.
Não vamos nos enganar, porque muito precisamos falar sobre ela para que as pessoas não se emudeçam diante deste fato.
Como deixar de falar sobre hanseníase?
Em termos práticos: hanseníase é uma doença que, assim como outras, tem cura! Só isso. Nada mais.
Em cada um de nós, filhos separados, a alma com cicatrizes que o tempo não consegue aliviar as nossas dores.
Por conta da lei nro. 610 de 1949...
Obrigado minha irmã Tereza pelo seu apoio.
Leidson Dias de Oliveira.