Artigo
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Nós, pessoas humanas, somos o que de mais valioso e perfeito existe na Terra e, até mesmo, em todo o universo que conhecemos.
Somos capazes de andar, de falar, de cantar, de pensar, de amar... e de tantas outras coisas maravilhosas, sem que seja preciso usar pilhas ou computador.
E todos esses predicados são encontrados tanto no rico quanto no pobre; no milionário, quanto no mendi-go; no nosso filho e no menino que vive na rua. Nada se compara em valor, em beleza, em complexidade, em perfeição com o bêbado que dor-me debaixo de jornais nos bancos da praça. Nem nosso carro, nem a nossa casa, nem a nossa obra de arte, nem a nossa conta bancária.. a não ser nós mesmos.
Por outro lado, nós pessoas humanas, somos ao mesmo tempo um ser físico, um ser social, um ser psi-cológico, um ser cultural. Cada uma dessas dimensões complementa a outra, e a vida de cada uma é alimen-tada pelas demais. o que atinge a uma, afeta a todos.
Perder uma pema, por exemplo, não afeta apenas a dimensão física. Na "cultura" do perfeito, seguindo-se padrões estabelecidos, a vida social de uma pessoa de uma pema só tem barreiras que são quase intransponíveis: na dança, no esporte, no simples caminhar num parque. o impacto psicológico então é ainda mais difícil de ser absorvido. Culturalmente a pessoa passa a ser vista e tratada de forma diferente e até ganha um novo nome: "perneta". Nosso referencial passa a ser a nossa deficiência física: . . "aquele doutor que tem só uma pema...", por exemplo. Dependendo da situação, ora somos tratados com preconceito, ora com piedade; outras vezes com a constante exigência de autosuperação para ser aceito como normal etc.
Um outro aspecto é que podemos perder um dedo, um braço, a mão, um pé, de varias formas: acidentes, guerras, brigas corporais, doenças etc.
Curioso é que essas causas de lesões podem ser mais ou menos danosas as outras "partes": perder um dedo da mão numa guerra, por exemplo, pode trazer orgulho; mas se for por causa de hanseníase, marginaliza. Apertar a mão que perdeu um dedo numa guerra é uma coisa; apertar a mão que perdeu um dedo por causa de uma doença contagiosa é outra. A mão de um "guerreiro" é diferente da mão de um "leproso", mesmo que o trauma físico seja igual.
Algumas dessas agressões físicas atingem tanto as outras dimensões que, em alguns casos, acrescentam mais danos a estas.
Assim sendo, contrair a hanseníase, por exemplo, não é apenas, mesmo que afirmemos o contrário, contrair uma doença que agride os nossos nervos periféricos; mas, "contraímos" também uma nova identidade que, não raro, é muito pior do que a doença em Si; até porque essa alteração de identidade não tem cura. Ser tuberculoso, ser hanseniano ou leproso, ser aidético é, com certeza, muito pior do que estar com tubercu-lose, com hanseníase ou com AIDS, até mesmo porque quando se diz "fulano é leproso", esta se atribuindo a ele um estado permanente - ele é; não se compara com "fulano esta com hanseníase", a quem se atribui um estado passageiro - ele esta.
Essas identidades cujos cartórios de registro são, muitas vezes, o próprio consultório medico ou Os even-tos técnicos de saúde, não atingem apenas a nossa parte física, é claro, mas a totalidade do nosso ser.
Diante do exposto, concluímos que o tratamento de uma, pessoa que ESTÁ COM HANSENIASE, não pode ser resumido numa simples caça ao bacilo de Hansen.
Nunca podemos esquecer, mesmo que seja pelos mais nobres motivos, que o bacilo de Hansen não é mais importante que seu habitat. Mesmo que não possamos colher rosas sem de alguma forma mutilar a roseira não é inteligente matar uma mosca pou-sada em alguém com um tiro de revólver.
Passei vinte e um anos da minha vida internado em três hospitais-co-lônias em pontos do Brasil: Rondônia, Acre, São Paulo. Conheci e conheço dezenas de técnicos em saúde. Com raras e ricas exceções fi-quei com a impressão de que esses profissionais, ha alguns anos dividiam o portador de hanseníase em três partes: bacilos, bacilos e bacilos. Era muito difícil sermos procurados não fosse para pesquisarem se ainda tínhamos o 'precioso bichinho", como "viveiro" de alguma coisa mais importante do que nós. Para eles, não tínhamos olhos, nem ouvidos, nem cérebro, nem coração... (Quantas coisas ouvi e compreendi; mesmo que achassem que eu não era capaz disso!). Mas eles, graças a Deus, evoluíram: com o tempo começaram a nos dividir em: bacilos, pés, mãos. Passando mais uns anos e, pela ajuda de poucos (pouquíssimos), deram um novo passo: bacilos, pés, mãos e olhos. (Ufa! chegaram aos olhos.) Até hoje, não evoluíram mais... Nas áreas psicossociais, tenho que reverenciar pessoas pela sua luta, pelo seu sonho, pelo seu "querer fazer alguma coisa" mesmo "remando contra a maré"'.
Cada um de nós, com certeza, tem algo de que gosta muito: um móvel antigo, um livro, um quadro (não importa de que autor) etc... Vamos supor que a nossa "paixão" seja um quadro. Certo dia olharmos para ele e vemos que está sendo atacado por cupins. Já tem até uma parte estra-gada. o que fazemos? Simplesmente jogamos inseticida para mata-los? Ficar apenas festejando sua destruição? Achar que já cumprimos o nosso dever? Claro que não. Vamos aca-bar com os insetos, sim, mas de forma que não danifique ainda mais o quadro. E depois? Depois com cer-teza vamos fazer todo o esforço para achar alguém que o recupere. Um técnico competente, e, naturalmente, que goste e conheça o valor do seu trabalho e a qualidade da tela.
Ora, como já enfatizamos, somos infinitamente mais valiosos do que qualquer obra de arte. E muito mais complexos, como também já falamos. Por isso, achamos que qualquer programa de combate a hanseníase a ser implantado, que não busque a cu-ra do doente como um todo, será apenas uma "deleitação". o combate á hanseníase deve ser acompanhado pela cura do doente, pela restaura-ção completa da obra.
E admirável como as pessoas que nos atendem menosprezam o NOSSO cérebro. Sempre confundem falta de escolaridade com "burrice". Por falar nisso, acho que o portador precisa participar de forma ativa do seu trata-mento. Ele deve fazer parte de forma consciente da equipe que o trata. Seu cérebro deve ser usado! Afinal a ele cabem as tarefas mais importantes para sua cura. Vejamos: tomar o remédio; se não toma-lo, não importa que o medicamento e o resto da equipe sejam Os melhores do mundo, não vai ficar curado; observar e cuidar do próprio corpo, evitando o processo de mutilação; lutar para não perder e reaver o seu espaço na sociedade; acreditar, pois sem isso nada conseguirmos, e tantas outras tarefas importantes.
Como membro da equipe responsável pelo seu próprio tratamento, tem os mesmos direitos dos outros: a confiança, ao respeito e, se possível, a amizade.
A hanseníase é uma doença que ataca pessoas humanas que se sentirão muito felizes em poder contribuir para eliminar da Terra essa grande mancha. Mas não acredito no desaparecimento dessa nódoa, se o doente não for conscientizado: tomar um comprimido para matar o bacilo de Hansen, não significa expulsar apenas o agressor do seu corpo mas também tem uma doença que mata, mutila e marginaliza o portador e envergonha a humanidade.
Vivemos o tempo das grandes vitórias na Medicina sobre muitas enfermidades que nos acompanham ha séculos. A tuberculose, as doenças Se-xualmente transmissíveis, a hanseníase são exemplos. Porem a descoberta da cura desses males não significou sua eliminação; pelo contrá rio, elas recrudescem, proliferam e continuam castigando todos nós, principalmente Os mais pobres. Onde tem miséria, existe hanseníase e tuberculose em abundância, como se fossem irmãs gêmeas.
Se olharmos para a trajetória da hanseníase no mundo teremos a impressão que ela sente pavor da ri-queza. Parece que o fator mais eficaz para sua prevenção é o desfrutar de uma vida digna. Por outro lado, a maioria dos enfermos não tem acesso ao tratamento mesmo porque não foram diagnosticados.
Existe grande numero de doentes ocultos, imersos na multidão, alguns vindos a tona quase por acaso. Não ó a toa que a maioria dos afetados conhecidos só foram diagnosticados com a doença já polarizada, signifi-cando estarem atingidos ha vários anos. E o mais grave ó que deixaram para trás uma multidão infectada, aumentando assim a endemia. Nada ou pouco se faz para provocar a demân-da espontânea aos serviços de saúde para a realização do diagnóstico precoce, sem o que não chegaremos nunca a eliminação da doença. Do jeito que esta apenas podaremos Os galhos, deixando o tronco gerador Os doentes não diagnosticados e não tratados, ocultos na multidão. Como arranca-lo? Insistimos no óbvio. Em primeiro lugar, pensaremos admitir que quem pega hanseníase são pes-soas humanas igualzinhas a nós. Se um dia descobrirmos uma mancha dormente, pensaremos em hanseníase e buscaremos tratamento, pois Conhecemos Os primeiros sinais clínicos da doença. Por que então habi-tantes de países endêmicos não Conhecem esses sintomas e sinais? Por que não temos a humildade e a sabedoria de admitir o óbvio? A campanha de informação de massa a respeito da hanseníase nos países endêmicos é tão imprescindível para a eliminação da doença quanto a própria poliquimioterapia. As duas se completam.
Qualquer programa de combate a hanseníase sem campanha informa-tiva a população é paliativo e incom-pleto, é ineficaz.
A não ser que alguém queira se locupletar da hanseníase, pois a "mercadoria lepra" é altamente vendável e lucrativa. Ai, não seria mesmo inteligente "arrancar" o tronco que gera lucro. É matar a galinha dos ovos de ouro. Mas me recuso a acreditar nessa perversidade. A arrogância nos deixa tão míopes que não somos Capazes de ver o óbvio.
A HANSENIASE TEM CURA!!! Es-ta é uma das mais importantes e espetaculares manchetes do século XX. Pena tão poucas pessoas saberem disso, até mesmo a maioria dos portadores porque nem se apercebem doentes. E muito difícil eliminar a hanseníase. Mas temos que sonhar (Só os seres humanos sonham!).
Se a tarefa não fosse árdua, outros já teriam conseguido. Todos os feitos da humanidade nasceram de visionários e, com certeza, a utopia é produto do desejo de milhões de pessoas.
A nossa geração tem o dever de realizar esse sonho porque possui a felicidade de contar com os meios necessários. Se a gente não fizer isso, tenho a impressão que seremos culpados diante da História. Não podemos deixar para gerações futuras esse fardo tão vergonhoso e cruel.
A hanseníase tem cura, mas Os medicamentos não agem sozinhos. Se não adicionarmos a cada comprimido uma dosezinha da nossa vontade, do nosso compromisso, do nosso amor, eles poderão não ser úteis ou até indesejáveis ou venenosos.
Alias, o amor ainda é o melhor remédio para todos Os males do mun-do desde que seja traduzido em trabalho, em humildade, em Ética, em compromisso, em justiça... A hanseníase também se cura com amor. Com muito amor.
Francisco Augusto Vieira Nunes (Bacurau)
Rio Branco, 30 de abril de 1993.
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